Amor, Anarquia e Drama

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Aventuras e Desventuras de Anarquistas Clássicos no Poliamor

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Como grande parte de anarquistas contemporâneos, muitas anarquistas dos séculos XIX e XX mantinham relacionamentos com múltiplas parcerias amorosas ou estavam envolvidos com parceiros que tinham outras relações. Assim como acontece hoje em dia, isso normalmente gerava fofoca, dor de cabeça, ciúme e processos emocionais intermináveis. Uma história completa do drama poliamoroso anarquista seria quase tão ambiciosa quanto uma história abrangente do próprio movimento anarquista. Aqui, nos limitamos a algumas histórias intensas da vida de um punhado de anarquistas clássicos. Há muito mais a ser contado — por exemplo, o triângulo amoroso envolvendo Emma Goldman, Alexander Berkman e Johann Most, ou os escritos de Voltairine de Cleyre sobre propriedade e possessividade nos relacionamentos.

Por que revisitar tudo isso, você pergunta? Certamente, não apenas pela emoção lasciva de deixar os esqueletos saírem do armário para dançar um pouco no dia dos namorados. Não, voltamos a essas histórias porque nossos antecedentes eram exatamente como nós, falhos e falíveis, mas capazes de grandeza. Eles foram responsáveis por atos heroicos e por imbecilidades grosseiras (não esqueçamos o antissemitismo de Bakunin). Ao estudar suas vidas, podemos reconhecer algumas maneiras de melhorar a nós mesmos.

Não é só com beijos que se prova o amor — mas com consumo!” — Propaganda do Dia dos Namorados de 1948.

Na data de hoje, não poderíamos deixar de considerar que o Brasil é o único lugar que tem o 12 de junho como Dia dos Namorados. Diferente de outros países das Américas e do mundo, que celebram o dia 14 de fevereiro como Dia de São Valentin (ou Valentine’s Day), a data foi estipulada no Brasil em 1948 por sugestão de João Doria, publicitário rico e influente, pai do playboy da TV e hoje governador de São Paulo, João Doria Neto. Sua proposta era criar em junho uma data para aquecer o comércio: o primeiro semestre já tinha carnaval, páscoa, dia das mães e o final do ano o dia dos pais, das crianças, natal e ano novo. Vale notar que não é só o estado e a religião que buscam formalizar e governar os assuntos do coração. O mercado e o capital também disputam esse terreno plantando sua publicidade e suas narrativas colonizadoras, nos aliendando de nossos sentimentos e nossa sexualidade, para que possamos comprá-las novamente como produtos.

Um cartão de membro da “Associação Internacional de Combate ao Ciúme e Exclusividade no Amor” de Emile Armand.

“Queremos a liberdade; queremos que homens e mulheres possam amar-se e unir-se livremente sem outro motivo que o amor, sem nenhuma violência legal, econômica ou física. Mas a liberdade, mesmo sendo a única solução que podemos e devemos oferecer, não resolve radicalmente o problema, pois o amor, para satisfazer-se, tem necessidade de duas liberdades que concordam e que frequentemente discordam; e deve-se levar em conta que a liberdade de fazer o que se quer é uma frase desprovida de sentido quando não se sabe o que quer.”

-Errico Malatesta, “Amor e Anarquia

Mikhail e Antonia Bakunin e Carlo Gambuzzi

Um dos anarquistas mais influentes do século XIX, Mikhail Bakunin disse a famosa frase: “Eu sou verdadeiramente livre apenas quando todos os seres humanos, homens e mulheres, são igualmente livres”. Em seu Catecismo Revolucionário,1 ele dedicou uma seção à abolição de relacionamentos compulsórios, conjugais ou não:

O casamento religioso e civil é substituído pelo casamento livre. Dois indivíduos adultos e de sexos diferentes têm o direito de unir-se e separar-se conforme sua vontade, seus interesses mútuos e as necessidades de seu coração, sem que a sociedade tenha o direito, seja de impedir sua união, seja de mantê-los juntos contra a vontade. O direito de sucessão estando abolido, a educação de todas as crianças estando assegurada pela sociedade, todas as razões que foram até hoje apontadas para a consagração política e civil do casamento desaparecem, e a união de dois sexos deve readquirir sua inteira liberdade que aqui, como em toda parte e sempre, é a condição necessária da moralidade sincera. No casamento livre o homem e a mulher devem igualmente gozar de uma liberdade absoluta. Nem a violência da paixão, nem os direitos livremente concedidos no passado poderão servir de desculpa para nenhum atentado de um contra a liberdade do outro, e semelhantes atentados serão considerados crimes.

Havia uma diferença de 24 anos de idade entre o pai e a mãe de Mikhail; o noivado entre ambos começou quando sua mãe tinha 18 e seu pai estava quase com 42. Isso não era particularmente incomum na Russia naquela época. Mikhail cresceu cercado por quatro irmãs, de quem ele aprendeu uma variedade de atividades intelectuais e, acima de tudo, a importância da autonomia e auto-determinação das mulheres. Ele se tornou adulto lutando junto a elas contra a pressão de seus pais para casar com homens que não compartilhavam seus interesses filosóficos ou artísticos.

Quando Mikhail estava vivendo no exílio na Sibéria, depois de ser condenado à morte em três países por participar das revoluções de 1848 e 1849, ele encontrou Antonia Kwiatkowska, a filha de um professor polonês exilado. Quando casaram, ela tinha 18 e ele tinha 44.

Alguns anos mais tarde, Mikhail conseguiu realizar uma fuga ousada da Sibéria, circunavegando o mundo para chegar na Europa Ocidental, onde ainda não havia um preço por sua cabeça. Antonia se juntou a ele e ambos viveram juntos na Suécia, Itália e Suíça.

Nesse momento, Antonia estava na faixa dos vinte anos, enquanto Bakunin na dos cinquenta, prematuramente envelhecido pelos anos acorrentado em prisão solitária. Antonia começou um relacionamento tempestuoso com um dos mais jovens camaradas italianos de Bakunin. Na seguinte carta ao seu amigo russo Nikolaj Ogarev, Bakunin descreve os consideráveis desafios que se apresentaram. Seus sentimentos complexos serão familiares a qualquer pessoa que tenha lutado para estabelecer limites em relação a um relacionamento volátil de uma pessoa companheira ou que tenha lutado para equilibrar as demandas de dois relacionamentos muito diferentes.

Antonia e Mikhail Bakunin.

16 de Dezembro, 1869
Locarno, Suíça

Antonia chegou. Fui encontra-la em Arona, a primeira cidade italliana no fim do Lago Maggiore e passei dois dias e meio em uma grande ansiedade, na espera dela a qualquer momento. Ao contrário do telegrama que eu tinha recebido de Nápoles, ela chegou com dois dias inteiros de atraso, como consequência da tempestade no Mediterrâneo. Ela viajou pelo mar por conta do preço baixo. A pobre mulher estava bastante abalada. Imagine-se nessa situação: sozinha no mar com uma criança de dezoito meses de idade, grávida de 8 meses e com uma propensão ideal para enjoos por conta do mar. Ela passou dias sem se mexer no barco até Gaeto, apesar da terrível turbulência marítima. Ela chegou a mim exausta e doente. A criança também está doente. Eu as levei para Arona com grande dificuldade. Antonia descansou um pouco, a pequena criança também. Mas em quatro, três, ou talvez duas semanas, ela vai parir. Você entende que nessas condições, minha cabeça está rodando.

Caro amigo, quero de uma vez por todas explicar-lhe o meu relacionamento com Antonia e seu verdadeiro marido. Fiz uma coisa terrivelmente estúpida, mais do que isso, cometi um crime casando com uma jovem quase duas vezes e meia mais nova que eu. Eu poderia, para me justificar, invocar muitas circunstâncias atenuantes, dizer-lhe que a tirei de um buraco provinciano vulgar, que se ela não tivesse se casado comigo, ela se tornaria a esposa de um monstro, de um chefe de polícia da Sibéria. Mas um fato é um fato, um erro é um erro e um crime é um crime. Antonia é uma pessoa gentil e uma alma bonita, eu a amo tanto quanto um pai pode amar sua filha. Consegui afastá-la do mundo das ideias triviais, ajudá-la no desenvolvimento humano e salvá-la de muitas tentações e amores vulgares. Mas quando ela conheceu o amor verdadeiro, eu não acreditava ter o direito de entrar em uma luta com ela, ou seja, contra esse amor. Ela amava um homem que é completamente digno dela, meu amigo e meu filho na doutrina social-revolucionária, Carlo Gambuzzi. Dois anos e meio atrás, Antonia veio me dizer que o amava e eu lhe dei minha bênção, implorando que ela me visse como amigo e que lembre-se de que ela não tinha amigo melhor nem mais certo do que eu.

Alguns meses depois, no Congresso de Genebra, depois de uma longa briga, não só da parte dela, mas também de Gambuzzi, uma briga na qual, além disso, não interferi de maneira alguma e ignorei deliberadamente, Antonia se viu grávida. Por falta de confiança, ela escondeu a gravidez de mim, sofreu terríveis tormentos, enganou a todos e, sob o pretexto de viajar, foi dar à luz em uma vila perto de Vevey, expondo a si mesma e à criança a um grande perigo. Informado disso, sem meu conhecimento, Gambuzzi chegou e levou a criança com ele para Nápoles. Antonia se recuperou; quanto a mim, eu ainda não suspeitava de nada.

Há um ano, em outubro de 1868, um incidente me revelou tudo. O fato de eu não ficar sabendo disso antes não é culpa de Antonia, mas de Gambuzzi. Desde o início, ela queria me contar tudo, mas ele exigiu e pediu que ela não falasse comigo sobre nada. A esse respeito, como em muitos outros, ele se mostrou inferior à ela. Criado no mundo burguês da Itália, ele ainda não consegue se libertar do culto à propriedade e à questão de honra e muitas vezes prefere pequenos caminhos sinuosos à longa estrada reta. Eu direi em sua defesa que o pensamento de me magoar e me ofender realmente o aterrorizou. Ele tem um apego filial por mim e uma inegavelmente calorosa amizade.

De qualquer forma, tendo aprendido a essência das coisas, repeti para Antonia que ela era totalmente livre e pedi que ela decidisse seu próprio destino, sem nenhuma consideração minha, da maneira que ela acreditava melhor: ficar comigo como esposa — esposa é claro, apenas no que diz respeito ao público — ou se separar de mim e viver em Nápoles abertamente como a esposa de Gambuzzi. Ela decidiu a primeira opção pelas seguintes razões: acima de tudo, ela está acostumada comigo e a ideia de viver separada parecia insuportável para ela; segundo, ela temia ser um fardo para Gambuzzi, temia colocá-lo em uma situação da qual ele não saberia se retirar com honra, dados seus preconceitos sociais.

Então, nós três decidimos que tudo continuaria da mesma forma como antes. A criança passava o inverno em Nápoles (essa decisão foi tomada em outubro de 1868) e, no outono, Antonia viajava para a Itália, supostamente com uma amiga polonesa doente que iria “morrer” no verão e confiava seu filho a Antonia. No outono, Antonia viajou para Nápoles com a criança e o que aconteceu foi o que era esperado e o que eu havia previsto: mais uma vez, ela ficou grávida.

Ela estava desesperada. Então Gambuzzi propôs que ela viesse a dar à luz em Nápoles e deixasse o novo filho inteiramente sob sua tutela; renunciando-o completamente, ela retornaria comigo após o nascimento, com o filho, nosso filho adotivo do falecido amigo polonês (é claro, um mito). Antonia se rebelou contra essa proposta e declarou categoricamente que por nada no mundo, nem por qualquer consideração, ela abandonaria seu filho. Uma briga começou entre ela e Gambuzzi. Eles apelaram a mim como juiz. Escolhi o lado de Antonia, é claro, e escrevi para Gambuzzi que seu plano era monstruoso, que uma mãe capaz de abandonar seu filho simplesmente por considerações sociais seria um monstro aos meus olhos.

Então, Antonia me fez esse pedido: sair de Genebra, venha para a Itália e reconhecer os dois filhos como meus. Não refleti por muito tempo e concordei. Eu me senti obrigado a aceitar, porque não via outra maneira de salvar Antonia e, tendo cometido um crime contra ela, era meu dever ajudá-la. Isso aconteceu em julho ou agosto deste ano, justamente no momento em que te avisei que tinha que sair de Genebra.

Depois do congresso de Basileia, Antonia me pressionou. Apressei-me a sair e, como combinado, fui para Locarno, comecei a procurar uma casa, uma babá e telegrafei a Antonia dizendo que ela poderia vir, que eu estava esperando por ela. Durante mais de duas semanas, não recebi nenhuma resposta ao meu telegrama, nem às cartas enviadas depois dele. Percebi que a luta continuava entre eles. Escrevi para eles uma carta sinódica na qual, enquanto descrevia nossa situação mútua para eles em sua verdadeira luz, indiquei duas opções para eles e exigi que escolhessem uma ou outra, a saber: Antonia, renunciando de uma vez por todas ao amor de Gambuzzi e contentando-se apenas com a amizade dele, volte imediatamente para mim com meu filho e meu futuro filho, ou então permaneça em Nápoles, assim como seria conhecimento de todos, enquanto esposa de Gambuzzi com os dois filhos de seu relacionamento também reconhecido por ele. Ofereci meu carimbo de aprovação para qualquer uma das decisões, mas exigi que elas escolhessem uma ou outra sem demora e afirmei que só concordaria novamente em fazer a primeira, desde que entre em vigor imediatamente.

Antonia chegou. Gambuzzi se ofereceu para ficar, mas ela recusou a oferta.

As relações amistosas de minha parte, assim como de Antonia, continuam com Gambuzzi. O relacionamento romântico deles acabou. Adotei os filhos de Gambuzzi, sem negar o seu incontestável direito de assumir os cuidados e guiar sua educação ao lado de Antonia. A vida aqui é barata. Ele pagará 150 francos por mês no fundo comum e eu farei o mesmo. Ficaremos juntos, Antonia e eu, enquanto a revolução não me chamar. Então vou pertencer apenas à revolução e a mim mesmo.


De fato, depois que essa carta foi enviada, Antonia manteve um relacionamento romântico com Carlo Gaumbuzzi e deu à luz um terceiro filho com ele. Mikhail e Antonia continuaram a viver juntos e Mikhail participou da criação dos três filhos como se fossem seus. Antonia ficou ao lado de Mikhail, mesmo quando conflitos políticos e má administração financeira o afastaram de muitos de seus outros camaradas e criaram dificuldades consideráveis para a família. Após sua morte, ela finalmente foi viver com Gambuzzi e os dois tiveram mais uma filha juntos.


Errico Malatesta, Emilia Tronzio-Zanardelli, e Giovanni Defendi

Ainda adolescente, Errico Malatesta conheceu Mikhail Bakunin e juntou-se a ele para ajudar a organizar a Primeira Internacional e outros esforços anarquistas, incluindo levantes armados em 1874 e 1877. Procurado pela polícia italiana para sempre depois disso, ele foi obrigado a gastar uma grande parte de sua vida se escondendo ou no exílio, especialmente em Londres.

Na mesma época em que conheceu Bakunin, Malatesta iniciou um relacionamento romântico com a anarquista Emília Tronzio-Zanardelli. Pouco se sabe sobre o relacionamento deles, mas eles provavelmente começaram a se ver já em 1871,2 quando Malatesta estava envolvido, junto de seu irmão, no movimento estudantil Mazzinista e depois na seção napolitana da Primeira Internacional. Emília se mudou com seu irmão para Londres em 1879 e começou a trabalhar como costureira.

Giovanni Defendi, um camarada deles, foi para a França em 1871 para participar da defesa da Comuna de Paris, pela qual ficou preso por oito anos. Após sua libertação, em 1880, ele se mudou para Londres. Naquele ano, ele e Emília anunciaram que estavam entrando em uma union libre:

O abaixo-assinado a seguir faz questão de anunciar que, em 8 de maio de 1880, eles entrarão em uma união livre, na presença de alguns amigos socialistas convidados e reunidos simplesmente para receber comunicação.

As razões que os determinaram a dispensar o casamento legal, bem como o casamento religioso, são o fato de vê-las como instituições burguesas criadas com o único objetivo de resolver questões de propriedade e herança, não oferecendo nenhuma garantia séria aos proletários de qualquer sexo, consagrando a subjugação das mulheres, comprometendo votos e consciências para o futuro, sem levar em conta os indivíduos envolvidos e opondo-se à dissolubilidade que é a base de qualquer contrato.

A questão das crianças será resolvida mais tarde da maneira mais conforme à justiça e de acordo com a situação que a sociedade burguesa lhes impõe.

Saudações fraternas.

-Giovanni Defendi, Emilia Tronzio-Zanardelli

Malatesta já estava morando com Emília antes disso; ele se juntou ao casal em sua residência em Londres em 1881. Ele viveu com ela e com Giovanni por grande parte das próximas quatro décadas. A polícia britânica, escandalizada, informou que havia rumores de que Malatesta estava dormindo com Emilia, apesar de seu relacionamento com Giovanni.

Errico Malatesta.

A casa e o comércio do casal Defendi, onde Malaresta viveu, na rua High 112 em Islington, era um ponto de convergência para todo mundo que chegava em Londres. Quantas discussões agitadas e fraternais se passaram na pequena cozinha que passa pela mercearia da família Defendi, a qual serviu como um Ateneu!

-Luigi Fabbri, A vida de Malatesta

Emilia tinha seis crianças, algumas das quais ela deve ter concebido com Malatesta — inclusindo seu filho Enrico, nascido em 1883, que acompanhou Malatesta quando ele foi pra Itália em 1897 e sua filha Adele, nascida em 1892. Quando Emilia adoeceu após a Primeira Guerra Mundial, Malatesta ficou ao lado de sua cama por meses, cuidando dela até ela falecer.

Em contraste com as dificuldades dramáticas que assolaram Mikhail, Antonia Bakunin e Carlo Gambuzzi, as relações de Errico Malatesta, Emilia Tronzio-Zanardelli e Giovanni Defendi parecem ter sido saudáveis e estáveis, proporcionando uma base sólida para suas décadas de atividade política. Sabendo que Mikhail Bakunin foi mentor do jovem Malatesta, não conseguimos deixar de nos perguntar se os dois alguma vez já conversaram sobre assuntos do coração. Poderia a graciosa conduta de Malatesta em relação ao casamento de sua parceira ter sido orientada por conselhos ou anedotas de Bakunin? Sabemos que eles discutiram os aspectos políticos e bélicos da libertação, mas sabemos menos sobre suas discussões em torno dos seus aspectos pessoais, os quais são igualmente fundamentais para o projeto anarquista.

Da mesma maneira, embora Emilia Tronzio-Zanardelli fosse uma participante importante no movimento anarquista italiano em diáspora ao longo de várias décadas, temos pouca documentação para entender a materialidade de suas contribuições. Com base no que sabemos sobre seu papel de organizar, entretanto, sabemos que suas contribuições eram significativas.

“Eliminemos a exploração do homem pelo homem, combatamos a pretensão brutal do macho que se crê dono da fêmea; combatamos os preconceitos religiosos, sociais e sexuais; Em todo caso, (no futuro anarquista) os desafortunados no amor poderão procurar outros gozos, pois não acontecerá como hoje em dia que o amor e o álcool se constituem os únicos consolos para a maior parte da humanidade.”

-Errico Malatesta, “Amor e Anarquia”


América Scarfó, Severino di Giovanni, e Émile Armand

Se não sabemos o quanto gostaríamos de saber sobre as perspectivas de Antonia Bakunin e Emilia Tronzio-Zanardelli, por outro lado temos um relatório completo dos pensamentos de América Scarfó, uma anarquista argentina que começou uma relação romântica com um homem casado enquanto ela ainda era uma adolescente.

Nascida numa família imigrante de classe média, América já compartilhava ideias anarquistas com seus irmãos Paulino e Alejandro ao fim de sua adolescência. A família delas alugou um quarto para um anarquista italiano que tinha fugido com sua mulher e três crianças para a Argentina por conta da ascensão de Mussolini. Ele e América começaram uma animada troca intelectual que aflorou em um romance. Mas então uma operação policial o forçou a ir se esconder com Paulino e Alejandro

Frustrada pela interferência do Estado, a oposição de seus pais e, o pior de tudo, as críticas de outros anarquistas, América escreveu a seguinte carta do outro lado do Oceano Atlântico para Émile Armand, um anarquista internacionalmente conhecido, defensor da “sexualidade revolucionária” e da camaradagem amorosa. Armand tinha revivido a publicação anarquista L’En-Dehors do anarquista individualista Zo d’Axa, em grande parte como veículo para promover o que hoje podemos chamar de anarquia de relacionamento.

L’En-Dehors de Émile Armand.*

Ao mandar essa carta, América estava declarando publicamente a legitimidade de um relacionamento não sancionado pela igreja, pelo Estado ou seus pais, assim como Giovanni Defendi e Emilia Tronzio-Zanardelli tinham feito antes dela. Entretanto mais que isso, ela estava tomando medidas revolucionárias no terreno que estava disponível para ela como uma jovem mulher em Buenos Aires: desafiando as normas em torno de intimidade, gênero e relações afetivas na sociedade em geral, na família em que nasceu e nos círculos sociais de seus camaradas anarquistas.

Revolução não é uma coisa que o partido implementa no parlamento ou os trabalhadores realizam nas fábricas – é um projeto que diz respeito a cada aspecto da vida, e portanto, cada pessoa, onde quer que ela esteja situada.

Buenos Aires, 3 de Dezembro de 1928
Ao camarada E. Armand

Querido Camarada,

O propósito dessa carta é, em primeiro lugar, de pedir seu conselho. Temos que agir, em todos momentos de nossas vidas, de acordo com nossa própria maneira de ver e pensar, de tal modo que reprovações e críticas de outras pessoas encontrem nossa individualidade protegida pelos conceitos mais saudáveis de responsabilidade e liberdade, os quais formam um muro sólido enfraquecendo seus ataques. Por essa razão, devemos agir de acordo com nossas ideias.

O meu caso, camarada, é de cunho amoroso. Sou uma jovem estudante que acredita na nova vida. Acredito que, graças a nossas ações livres, individuais ou coletivas, nós podemos chegar ao futuro do amor, fraternidade e igualdade. Eu desejo para todas pessoas apenas o que eu desejo para mim mesma: a liberdade de agir, de amar, de pensar. Isto é, eu desejo anarquia para toda humanidade. Acredito que para conseguir isso, devemos fazer uma revolução social. Mas também sou de opinião que para se chegar a esta revolução é necessário que nos libertemos de todos os tipos de preconceito, convencionalismos, falsos moralismos e códigos absurdos. E, enquanto esperamos para essa grande revolução acontecer, temos de realizar esse trabalho em todas ações de nossa existência. E de fato, a fim de fazer essa revolução vir, nós não podemos apenas contentar-nos com esperar, mas precisamos agir em nossas vidas cotidianas. Sempre que possível, devemos agir do ponto de vista de uma anarquista, isto é, de um ser humano.

América Scarfó.

No amor, por exemplo, não vamos apenas esperar pela revolução, vamos nos unir livremente, não respeitando preconceitos, barreiras e inúmeras mentiras que se opõem como obstáculos. Eu vim a conhecer um homem, um camarada de ideias. De acordo com as leis da burguesia, ele é casado. Ele se uniu a uma mulher como consequência de uma situação infantil, sem amor. Naquele momento, ele não conhecia nossas ideias. Entretanto, ele viveu com essa mulher por vários anos, e tiveram crianças. Ele não experimentou a satisfação que ele teria com uma pessoa amada. A vida se tornou entediante, a única coisa que unia ambos eram as crianças. Ainda um adolescente, esse homem veio a conhecer nossas ideias e uma nova consciência nasceu nele. Ele se tornou um militante corajoso. Dedicou-se a propaganda com ardor e inteligência. Todo o amor que ele não tinha dirigido a uma pessoa, no lugar ele ofereceu a um ideal. Em casa, enquanto isso, a vida continuou com sua monotonia aliviada apenas pela felicidade das pequenas crianças deles. Aconteceu que as circunstâncias nos aproximou, primeiro como companheiros de ideias. Conversamos, nos simpatizamos e aprendemos a nos conhecer. Assim nasceu nosso amor. Acreditávamos, no começo, que seria impossível. Ele que tinha amado apenas em sonhos, e eu, fazendo minha entrada na vida. Cada um de nós continuou vivendo entre incerteza e amor. O destino — ou, melhor, amor — fez o resto. Abrimos nossos corações e nosso amor e nossa felicidade começaram a entoar a sua canção, mesmo no meio da luta, do ideal, o que de fato nos deu um impulso ainda maior. E nossos olhos, nossos lábios, nossos corações expressaram-se na conjuração mágica de um primeiro beijo. Nós idealizamos o amor, mas estávamos trazendo-o à realidade. Amor livre, que não conhece barreiras, nem obstáculos. A força criativa que transporta dois seres através de um campo florido, coberto de rosas – e por vezes espinhos – mas onde encontrávamos felicidade sempre.

Não é verdade que todo o universo é convertido em um Eden quando dois seres se amam?

Sua esposa também — apesar de seu conhecimento relativo — simpatiza com nossas ideias. Quando chegou a hora, ela deu provas de seu desprezo pelos assassinos contratados da ordem burguesa quando a polícia começou a perseguir meu amigo. Foi assim que a esposa do meu camarada e eu nos tornamos amigas. Ela está plenamente consciente do que o homem que morava ao seu lado representa para mim. O sentimento de afeto fraterno que existia entre eles permitiu-lhe confiar nela. E ele lhe deu liberdade para agir como ela desejava, à forma que qualquer anarquista consciente faria. Até o momento, para dizer a verdade, vivemos realmente como em um romance. Nosso amor se tornou cada dia mais intenso. Não podemos viver em comunhão, dada a situação política de meu amigo e o fato de ainda não ter terminado meus estudos. Nos encontramos, quando podemos, em lugares diferentes. Essa não é talvez a melhor maneira de sublimar o amor, distanciando-o das preocupações da vida doméstica? Embora eu tenha certeza de que, quando se trata de amor verdadeiro, a coisa mais bonita é viver juntos.

Isso é o que eu queria explicar. Algumas pessoas aqui se tornaram juízes. E estas não se encontram tanto entre pessoas comuns, mas sim entre camaradas de ideias que se veem livres de preconceitos mas que, no fundo, são intolerantes. Uma dessas pessoas diz que nosso amor é uma loucura; outra aponta que a esposa de meu amigo está fazendo o papel de “mártir”, apesar do fato de que ela está ciente de tudo que nos concerne, é governante de si mesma e gosta de sua liberdade. Uma terceira levanta o ridículo obstáculo econômico. Sou independente, assim como meu amigo. Com toda probabilidade, vou criar uma situação economica pessoal para mim mesma que me libertará de todas preocupações nesse sentido.

No mais, a questão das crianças. O que as crianças tem a ver com os sentimentos de nossos corações? Por que um homem que tem crianças não pode amar? É como dizer que um pai de família não pode trabalhar pela ideia, fazer propaganda, etc. O qua faz elas pensar que aqueles seres pequenos serão esquecidos porque seu pais me ama? Se o pai estivesse para esquecer suas crianças, ele mereceria meu desprezo e não haviria mais amor entre nós.

América Scarfó in 1929.

Aqui, em Buenos Aires, alguns camaradas têm uma ideia de amor livre verdadeiramente limitada. Imaginam que ele consiste em apenas coabitar sem estar legalmente casados e, enquanto isso, em suas próprias casas continuam praticando todas as idiotices e preconceitos de pessoas ignorantes. Esse tipo de união que ignora o registro civil e o padre também existe na sociedade burguesa. Isso é amor livre?

Finalmente, elas criticam nossa diferença de idade. Apenas porque eu tenho 16 e meu amigo tem 26. Algumas me acusam de estar realizando uma operação comercial; outras me descrevem como imprudente. Ah, esses pontífices do anarquismo! Fazendo a questão da idade interferir no amor! Como se o fato de uma razão mental não fosse suficiente para uma pessoa responder pelas suas ações! Por outro lado, é problema meu, e se a diferença de idade não significa nada para mim, por que deveria importar para qualquer outra pessoa? O que eu prezo e amo é a juventude do espírito, que é eterna.

Há também aquelas que nos tratam como degeneradas ou pessoas doentes e outros rótulos desse tipo. Para todas essas eu digo: por que? por que vivemos a vida em seu sentido verdadeiro, porque reconhecemos o culto livre do amor? Por que, assim como pássaros que trazem alegria à calçadas e jardins, amamos sem prestar nenhuma atenção à códigos e falsas morais? Por que somos fiéis a nossas ideias? Eu desdenho todas aquelas pessoas que não conseguem entender o que é saber como amar.

Amor verdadeiro é puro. É o sol cujos raios se estendem para aqueles que não podem subir às alturas. A vida é algo que temos que viver livremente. Concordamos com a beleza, com os prazeres do espírito, com o amor, com a veneração que eles merecem.

Isso é tudo, camarada. Gostaria de ter a sua opinião sobre meu caso. Sei muito bem o que estou fazendo e eu não preciso ser aprovada ou aplaudida. É só que, tendo lido vários de seus artigos e concordando com vários pontos de vista, deixaria-me contente saber a sua opinião.


A carta dela foi impressa no L’en dehors em 20 de Janeiro de 1929 sob o título de “Uma Experiência”. Émile Armand imprimiu sua resposta junto a ela:

“Camarada: Minha opinião pouco importa nesse assunto que você me mandou sobre o que está fazendo. Você está ou não intimamente de acordo com sua concepção pessoal da vida anarquista? Se você está, então ignore os comentários e insultos de outras pessoas e continue em seu próprio caminho. Ninguém tem o direito de julgar sua maneira de conduzir a si mesma, mesmo se fosse o caso da esposa de seu amigo ser hostil a essas relações. Toda pessoa unida a um anarquista (ou vice versa), sabe muito bem que ela não deve exercer sobre ele, ou aceitar dele, dominação de nenhum tipo.”

Severino di Giovanni.

O amante que a América Scarfó de 16 anos de idade se refere nessa carta era, é claro, o anarquista Severino di Giovanni, o criminoso mais procurado da Argentina. Quando ela enviou essa carta, ele estava vivendo escondido, acusado de realizar uma série de atentados a bomba visando o Consulado italiano, a embaixada dos EUA, a empresa Ford Motor e um monumento em homenagem a George Washington, dentre outros alvos. No momento em que foi capturado em Janeiro de 1931 — junto com América e Paulino, o irmão dela — ele foi também acusado do roubo mais dramático na história contemporânea argentina e de ter atirado em vários policiais.

Naquele momento, um golpe militar havia acontecido na Argentina, Hitler estava a caminho do poder na Alemanha e o mundo inteiro parecia estar deslizando rapidamente para o fascismo. Em um contexto como esse, podemos entender as ações de Severino como uma tentativa racional de levar a cabo medidas revolucionárias tão necessárias que estavam disponíveis para ele, assim como ele e América estavam fazendo em seu relacionamento romântico.

Quando a polícia capturou Severino, eles correram com ele para um médico para tratar de suas feridas, de modo a garantir que ele morreria precisamente na hora que eles decretaram, depois do julgamento de exibição adequado. A polícia supostamente torturou Severino, mas nenhuma das pessoas detidas cooperou com o Estado delatando as demais. Depois do julgamento, o advogado de Severino foi detido, demitido de seu posto nas forças armadas, preso e deportado.

O romancista Roberto Arlt testemunhou a cena da execução de Severino:

Ele olha firmemente para seus executores. Ele emana determinação. Quer ele sofra ou não, é um segredo. Mas ele permanece assim, estático, orgulhoso.

Apenas depois da execução eles chamaram um ferreiro para soltar seus grilhões — e outro médico, dessa vez para se certificar que estava morto. Então eles executaram Paulino Scarfó, também, por precaução.

Eles haviam solto América, considerando-a inapta para ser julgada por conta de sua idade.

Severino di Giovanni no momento de sua prisão.

Em 28 de Julho de 1999, depois de 68 anos, o governo argentino finalmente retornou as cartas de Severino di Giovanni para América Scarfó. América morreu em 26 de Agosto de 2006 aos 93 anos de idade. Suas cinzas foram enterradas no jardim ao lado da sede da Federação Libertária Argentina em Buenos Aires.

Há muitos riscos diferentes em amar intensamente e fora das linhas prescritas. Talvez a única coisa pior do que esses riscos aterrorizantes seja a certeza mortal que vem de não ousar amar.

“Para nós o amor é uma paixão que engendra tragédias por si mesma.”

-Errico Malatesta, “Amor e Anarquia”


Leituras Aprofundadas

Daiana Rosenfeld e Anibal Garisto produziram um documentário sobre o relacionamento de América Scarfó com Severino di Giovanni chamado Los ojos de América (“Os olhos de América”).

Cartum de Thomas Nast atacando Victoria Woodhull, defensora do amor livre, participante da Primeira Internacional, parceira de anarquistas e, por acaso do destino, a primeira mulher a concorrer à presidência dos EUA.


“Mulheres quase em todo lugar são escravas, e nós mesmos somos escravos da servidão delas; sem a sua libertação, sem a sua liberdade completa, ilimitada, nossa liberdade é impossível.”

-Mikhail Bakunin, escrevendo em 1845, décadas antes de se tornar um anarquista ou existir qualquer coisa parecida com um movimento anarquista.3

  1. O Catecismo Revolucionário de Bakunin é distinto do Catecismo do Revolucionário de Sergey Nechayev, que muitas vezes é erroneamente atribuído a Bakunin. De fato, havia sérias diferenças entre a política dos dois revolucionários russos, como Bakunin expôs nesta carta a Nechayev. 

  2. Ver Errico Malatesta da Mazzini a Bakunin, La sua formazione giovanile nell’ambiente napoletano (1868-1873) por Misato Toda. 

  3. Ao utilizar a metáfora da escravidão, Bakunin falava da perspectiva de um russo que cresceu em um país que ainda estava amplamente baseado na servidão. Para ele, falar sobre a condição das mulheres como escravidão não era uma metáfora comparando raça a gênero, mas sim uma questão de equiparar diferentes formas de servidão.