1º de Maio de 2020: Registros ao Redor do Mundo

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Relatos e reflexões em torno de uma onda de novas formas de protestar

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O Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras de 2020 nos enfrentou um desafio árduo: nunca foi tão necessário agir por mudança e isso nunca foi tão difícil. Em algumas partes do mundo – incluindo a Liubliana, Viena e Chicago – anarquistas conquistaram avanços inspiradores; em outros lugares onde as pessoas ficaram em casa por desespero ou tentando repetir tradições familiares, os resultados foram desanimadores. Aqui, oferecemos uma visão geral de todos os experimentos em que as pessoas realizaram, dentre dezenas de países, com a esperança de que sirvam de inspiração e sejam modelos úteis para as novas rodadas de organização.

Nossos inimigos na classe dominante desejam retomar o funcionamento da economia sem nos permitir nenhumas das liberdades que precisamos para nos defendermos de suas imposições. Em todo o mundo, vimos policiais sem qualquer tipo de equipamento de proteção intimidando e atacando manifestantes que estavam usando máscaras, sem qualquer receio de arriscar propagar da pandemia com a desculpa de impedi-la. Isso evidencia a estupidez de contar com violência estatal para nos proteger de um vírus. A polícia certamente foi um dos principais vetores através do qual o vírus se espalhou ao redor do mundo e adentrou em nossas comunidades. Não estaremos a salvos até deixarmos de ser forçados a trabalhar em atividades econômicas arriscadas, ou obrigados a permanecer confinados e subservientes aos governantes por mercenários que não se importam se vivemos ou morremos.

Você pode acessar reflexões sobre as vantagens e desvantagens de protestos em carreatas aquie aqui. Esperamos que um cem número de táticas surja nos próximos meses de luta que temos pela frente.

Como sempre, esses relatos são organizados por país para mostrar os governos contra os quais os manifestantes lutam, não porque afirmamos a legitimidade de qualquer estado ou legado colonial.


Áustria

As celebrações e protestos do primeiro de maio aconteceram em toda a Áustria. As medidas de lockdown que restringiam a movimentação individual acabaram à meia noite e várias manifestações do primeiro de maio foram oficialmente permitidas e registradas. Além das tradicionais marchas e reuniões do Social Democratas e de vários grupos comunistas, que aconteceram de forma alternada com precauções do distanciamento social, houve também a presença de grupos de esquerda radical.

Viena, Áustria

Uma grande marcha se encontrou à tarde sob o lema “Solidariedade transnacional – contra a guerra e o racismo”. Cerca de 850 pessoas compareceram a marcha, usando máscaras, mantendo distância, e carregando cartazes e faixas.A marcha terminou na frente da prefeitura por volta das 3 da tarde.

No fim protesto um pequeno grupo de ciclistas com o logo “Solidariedade ao invés do ‘novo normal’” pedalaram ao redor e muitas pessoas da marcha se uniram a eles. A bicicletada incluiu quase 600 participantes. A manifestação vagou em torno de Ring, um grande boulevard que circunda o centro da cidade. Ela não havia sido registrada pelas autoridades; um número crescente de policiais começou a seguir a passeata e um helicóptero da polícia podia ser ouvido acima das cabeças.

Depois de tentarem bloquear a pista, os ciclistas se reagruparam e foram para o Prater, um grande parque, onde ocorreria o fim dos protestos. A polícia atacou os manifestantes no parque, jogando ciclistas no chão, chutando uma pessoa que estava sentada, revistando as pessoas, e prendendo três pessoas, que foram levadas para o centro de detenção da polícia em Rossauer Laende.

O “Plattform Radikal Linke”, um dos grupos que apoiou o chamado para a bicicletada declarou, “Apesar da repressão policial, nós mostramos um claro sinal de solidariedade: com os refugiados em campos e centros de detenção, contra forçar aqueles que são dependentes de salários para carregar nas costas a crise e seus efeitos; por outra forma de (re)produção em sociedade, que não as forças do capitalismo e do patriarcado. Por uma sociedade sem estado e sem classes mundial! Isto é também o que significa o primeiro de maio, dia da luta dos assalariados e oprimidos.”

Salzburgo, Áustria

Aspargos para todos! Em Salzburgo, anarquistas conseguiram alguns aspargos e distribuíram em uma ação direta pré-dia dos trabalhadores. Aspargos são muito caros nas lojas, mas os fazendeiros Austríacos (e Alemães) dependem de trabalhadores do Leste Eurpeu para colhê-lo, pagando a eles salários mínimos. Os produtores de aspargo recusaram-se a aceitar trabalhadores que se candidataram para trabalhar na colheita, argumentando que eles queriam salários maiores e não trabalhariam direito. Os trabalhadores do Leste Europeu estão indo para Áustria, mesmo com as restrições pelo coronavírus, e apesar de a Áustria ter se recusado até hoje a retirar uma única pessoa dos campos de detenção que ficam além das fronteiras da União Europeia (como a Moria). As condições são desumanas, como eram antes da chegada inesperada do coronavírus. As fronteiras são abertas para os lucros das corporações, mas não para salvar a vida de seres humanos. Tratamentos de saúde para todos!! Abram as fronteiras, evacuem os campos! Finalizando com as palavras “Luxo para todos” e “Bom apetite”, os anarquistas de Salzburgo incluíram algumas receitas com aspargos. O artigo completo com as fotos pode ser acessado aqui.

Bélgica

Uma nova iniciativa de greve de aluguéis decolou na Bélgica antes do dia dos trabalhadores. Uma lista de iniciativas de organização de greve de aluguéis agora incluem grupos dos Estados Unidos, Canadá, França, Espanha, Itália, Grã Bretanha, Brasil e também a Grécia.

Um poster do movimento pela greve de aluguéis na Bélgica.

No 1º de Maio, pessoas realizaram uma manifestação em Bruxelas, em frente à prisão de St-Gilles. Nove pessoas foram presas, mas libertadas à noite. As faixas liam “Rasons a todas as prisões, mauvais jours finiront!” (“Destrua todas as prisões, os dias ruins terminarão!”) E “Liberté pour tous.tes” (“Liberdade para todos”). As pessoas gritavam “Brique par brique, mur par mur, desdémons toutes les prisons” (“Tijolo por tijolo, parede por parede, destrua todas as prisões”).

Houve também uma demonstração em frente a um supermercado em Forest, onde um trabalhador morreu pelo COVID-19 algumas semanas antes, depois de ter sido negado o direito de usar uma máscara durante o trabalho.

Uma chamada para uma demonstração feminista organizada nas varandas circulou antes do primeiro de maio. Houve também uma manifestação em frente à embaixada turca em solidariedade a Rojava. Mais informações sobre os eventos do dia estão disponíveis aqui.

Brasil

No Brasil, apenas algumas ações anarquistas aconteceram no dia dos trabalhadores, como esta faixa em Feira de Santana, na Bahia, escrito “Bolsonaro Genocida” junto de um boneco enforcado representando o presidente.

Em Brasília, apoiadores do presidente fascista Jair Bolsonaro foram notícia por atacarem um grupo de enfermeiras que protestavam para dar visibilidade às demandas dos profissionais da saúde.

Enquanto isso, os anarquistas no Rio de Janeiro divulgam uma nota lamentando a perda de um camarada que acabara de morrer, vítima do coronavírus.

Canadá

Em Hamilton, uma carreata com uma faixa “Não Pague seu Aluguel” dirigindo pelos bairros de Central, Durand, Corktown, Stinson, Gibson, Landsdale e Beasley, estacionando em frente a arranhas-céu dos maiores proprietários de Hamilton, para convocar uma greve de aluguéis e oferecer solidariedade àqueles que estão penando para pagar seus aluguéis…

Em Montreal, faixas e grafites surgiram por toda a cidade expressando mensagens antiautoritárias.

Em Toronto, em resposta aos lucros gerados pela pandemia, alguns anarquistas colaram as fechaduras de vários bancos, decorando os prédios com grafites e estampando um manifesto explicado os porquês em detalhes.

Manifestação em Hamilton.

Chile

No Chile, a pandemia interrompeu uma grande insurreição em andamento que estava entrando em uma nova fase impressionante.

Em muitos lugares, as pessoas convocaram cacerolazos (ou panelaços) pelo primeiro de maior. Uma assembleia teve um dia para confeccionar máscaras e protetores faciais.

Em Santiago, houve um pequeno protesto na praça de La Dignadad (oficialmente, Praça Itália), um dos centros chave do emprego da violência nos recorrentes confrontos com a polícia no outono passado, onde um pequeno número de pessoas se juntaram para comemorar o dia internacional dos trabalhadores e para reivindicar que todos os prisioneiros políticos fossem libertados. Começou por volta das 11 da manhã e já havia uma forte presença da polícia. À tarde, a polícia passou a prender violentamente as pessoas e também a atirar água contra elas com canhões de água. A polícia estava tocando uma gravação em alto faltante avisando dos perigos de protestos violentos e dizendo que a polícia “tomaria medidas contra reuniões ilegais” e assim por diante. A gravação dizia algo sobre protestos violentos – o que, em nenhum momento, era o que estava acontecendo na praça. As pessoas estavam apenas lá, segurando cartazes, às vezes jogando flyers no ar.

Primeiro dia de manifestação em Santiago, Chile.

“Vamos sobreviver, vamos retornar, vamos triunfar.” Concepción, Chile.

A polícia prendeu quase 60 pessoas; a mídia oficial diz que foram 57. Prenderam muitos jornalistas, incluindo um repórter de um canal de TV nacional, que continuou a transmissão ao vivo de dentro do carro por alguns minutos até que os policiais vieram e para retirar a câmera.

Na delegacia, eles soltaram os membros da imprensa antes. Depois levaram os presos para outra delegacia, supostamente porque estava lotada e havia rumores que havia alguém infectado lá dentro. A mídia noticiou que estas alegações eram verdadeiras; não sabemos ao certo. Além de levar os que foram presos para outra delegacia para fazer a ocorrência, eles não tomaram medidas de prevenção nem liberaram os detidos com nenhuma recomendação especial para que ficassem em quarentena ou tomaram providências para realização de testes, pro exemplo.

Depois que algumas pessoas foram liberadas na primeira delegacia, os policiais jogaram spray de pimenta em todos que esperavam em solidariedade do lado de fora.

Apesar da polícia ter tirado vantagem da situação ao divulgar que que um dos detidos alegadamente testou positivo para o coronavírus, ressaltamos que eles nem ao menos solicitaram que os que foram presos se colocassem em auto-quarentena depois de serem liberados. Isso coloca a narrativa deles em cheque. É claro que daqui pra frente, as autoridades vão se valer do espectro do coronavírus para aterrorizar as pessoas para que não protestem, mesmo que nos obriguem a manter trabalhos sem nenhuma proteção.

Chile.

Os confrontos continuaram na praça ao longo do dia. Houve também um protesto do lado de fora do palácio do governo, onde líderes de sindicatos foram presos por tentarem pregar um cartaz. Os protestos também aconteceram em outras cidades incluindo Valparaiso e Concepción, em que há também evidencias gravadas da violência policial particularmente naquele dia.

Mais tarde, a polícia atacou os moradores de vários bairros de Santiago com gás de pimenta, especificamente a Villa Olímpica e Lo Hermida, dois lugares que normalmente são politicamente ativos e combativos em relação à polícia.

O governo Chileno – quase universalmente tido como ilegítimo antes da pandemia – continua realizando coisas em contraponto as pessoas. Nos últimos dias, eles reabriram alguns shoppings, mas continuaram proibindo reuniões públicas. A ideia originalmente era a de reabrir escolas ainda nessa semana, mas encontraram muita resistência de diferentes setores, incluídos prefeitos e outros políticos, então decidiram que não era o momento agora. A verdade é que o sistema escolar aqui não tem a capacidade de manter as aulas seguindo os regulamentos de restrição do número de alunos por classe e assim por diante.

Muitas pessoas perderam seus empregos e o governo praticamente não ofereceu nenhuma ajuda a esta situação, tampouco.

Em geral, as pessoas estão tentando ao máximo para manter em mente os protestos, para lembrar uns aos outros o porquê das revoltas do outono passado terem acontecido e para nos ater a ideia de que quando as coisas se estabilizarem com a pandemia, retornaremos as ruas.

França

Devido à pandemia de COVID-19 o autoritarismo e medidas políticas liberticidas tomadas pelo governo Francês de forma a impedi-la, havia muita incerteza com relação do dia do trabalhador 2020. Já há quase dois meses, a população foi orientada — quando não, forçada — a convir com decisões unilaterais tomadas por governantes para implementar uma estratégia de drástico isolamento. A fim de se assegurarem que as pessoas iriam seguir as novas orientações sanitárias o governo enviou um número enorme de forças policiais as ruas para controlar a movimentação de pessoas e atacar qualquer aglomeração. Como mencionamos no nosso artigo anterior, o fato de os esquadrões da polícia estarem entre os grupos de pessoas com permissão de estarem nas ruas a qualquer momento causou um escalada de assédio e brutalidade policial com o pretexto de que os que saíam não estavam respeitando o confinamento. Nesses tempos estranhos e alarmantes, sabíamos que não poderíamos nos reunir livremente para celebrar o primeiro de maio como fizemos em 2018 ou 2019.

“O vírus, capitalismo, poder [estatal] — vamos destruir o que está nos destruindo.”

No entanto, e apesar de tudo isso, diversos convocatórias online para protestos no 1º de Maio espalharam-se por toda a França. Um deles, chamado de “1er mai : pour des cortèges sans cortèges” (“Primeiro de Maio: Pelos cortejos sem cortejos”), tiveram o mérito de explicar porque protestos no Dia dos Trabalhadores são importantes na atual situação pandêmica — englobando a prática de distanciamento social — para reinventar as estratégias ofensivas contra o Estado e o Capitalismo fora da lógica clássica, ritualizada das marchas.

A seguir, doi trechos da convocatória:

“O 1º de Maio é um bom método de descobrir se estamos infectados com o vírus do medo, um indicativo para descobrirmos onde estamos em termos de confrontos das ruas, um termômetro para medir a temperatura da febre insurrecional e dos nossos anticorpos contra a repressão

“Bem, talvez se as medidas de distanciamento social não só nos impedisse de organizar grandes protestos, mas também nos impedisse de nos avantajar do que normalmente é bem sucedido e tranquilizante, isso é o que temos a dizer: sentir a força da soma, o calor da multidão… portanto, estas medidas questionáveis e desagradáveis nos obriga desenvolver outro tipo de protesto. Não é este um momento histórico para criar protestos ofensivos ilegais (de quaisquer níveis e envolvendo diversas táticas, desde fazer barulho até ativamente participando em depredações de propriedades) que são múltiplos, descentralizados, móveis, nunca estáticos, e muito menos reprimidos? Enquanto estamos cada vez mais adentrando a micropolítica — e a resistência ao biopoder — não seria interessante se fizéssemos dos micro-protestos uma nova estratégia? Relembrando que o lema de Hong Kong “seja água” não tinha o significado de “seja rio”, mas sim “seja como uma gota”, eu espero que o 1ºde Maio de 2020 seja uma chuva de micro-protestos para evitar um período de seca para os protestos por vir.”

“Um 1º de Maio sem confinamento.”

Devido às dificuldades de nos reunirmos nas ruas este ano, não listamos minuciosamente todas as ações que aconteceram em toda a França. A seguir, apresentamos algumas iniciativas que ocorreram nos entornos de Paris. Outros protestos e ações aconteceram em Lyon, Saint-Étienne, Grenoble, Gap, Poitiers, Toulouse, e Rennes.

Em Paris, uma convocatória foi feita para reunir-se às 10 da manhã no Place de la République. Um pequeno grupo de pessoas foram segurando vários cartazes e se espalharam em torno da praça mantendo as indicações de distanciamento social. Infelizmente, a ação não durou muito tempo, um grande número de unidades policiais esperavam no local e passaram a controlar e a prender pessoas.

Outra convocação foi feita nos distritos 18 e 20 de Paris. Mais uma vez, as forças policiais já estavam posicionadas para evitar qualquer aglomeração, e algumas unidades estavam mesmo patrulhando as ruas para controlar e dissuadir eventuais manifestantes. A estratégia da polícia em ocupar as ruas e assediar pedestre foi bem sucedido, de forma que o chamado para se reunir no distrito 20 foi cancelado.

Tentando protestar na França.

Olhando por um lado positivo, alguns trabalhadores da área da saúde e manifestantes conseguiram protestar nos entornos do hospital de Saint-Antoine em Paris e aproveitaram a ocasião para denunciar os cortes financeiros impostos aos hospitais públicos por décadas.

Em Montreuil, pessoas se reuniram e começaram em um protesto autônomo nas ruas, respeitando o distanciamento social. Infelizmente, um grande número de forças policiais acabou bloqueando e impedindo seu progresso e, em algum momento, começaram a checar documentos e a aplicar multas. No entanto, outro grupo de pessoas que organizaram seu próprio protesto foi bem sucedido, caminhando livres e felizes pelas ruas da cidade durante uma hora e meia. Também em Montreuil, as Brigades de Solidarité Populaire (Brigadas de Soliedariedade Popular) – uma iniciativa inspirada pelas Brigate Volontarie per l’Emergenza criada em Milão, Itália – tinham organizado a distribuição de comida a pessoas em necessidade, demonstrando mais uma vez que a solidariedade e ajuda mútua é uma de nossas melhores armas. Mas as autoridades decidiram mandar as forças policiais para atacá-los em nome da segurança pública e do confinamento. Por fim, dezenas de membros do BRAV (Brigadas Pela Supressão de Ações Violentas) cercaram o mercado e suspenderam a distribuição de comida, também multaram ambos os ativistas e as pessoas em necessidade.

Polícia francesa destruindo projeto de apoio mútuo.

Mercenários desprezíveis impedindo as pessoas de proverem recursos aos necessitados na França.

Como já explicamos, a pandemia em questão trás a oportunidade aos governos de todo o mundo de desenvolver e implementar novas políticas a fim de elevar o controle e a vigilância de certos grupos de pessoas e comunidades, táticas que irão posteriormente serem estendidas para toda a sociedade. Na França, tem se tornado cada vez mais difícil para as autoridades de esconder o fato de que as pessoas são tratadas diferentemente em termos de confinamento forçado de acordo com as comunidades das quais elas fazem parte. De um lado vemos pessoas sendo constantemente assediadas, [machucadas ou mortas(https://paris-luttes.info/au-nom-de-la-lutte-contre-le-covid-13848?lang=fr#nh6) pelos policiais porque são consideram que elas estão violando as regras do confinamento-enquanto por outro lado, babacas homofóbicos e xenofóbicos podem se reunir livremente em igrejas com a autorização do chefe de polícia.

O 1º de Maior de 2020 não foi uma exceção à regra. Por um lado, as autoridades decidiram reprimir qualquer forma de reunião ou atos durante o primeiro de maio, ao mesmo tempo, os oficiais do Rassemblement National — um partido xenofóbico de extrema direita — pôde prosseguir com sua tradicional cerimônia em frente à estátua de Joana D’Arc sem nenhuma presença policial e cercada de jornalistas prontos para registrar o momento.

A cereja do bolo disso tudo, foi que ao longo da discurso presidencial do Dia dos Trabalhador — em que o presidente glorificou o “trabalho” como um dos pilares chefes capazes de “unificar” a “nação” — Emmanuel Macron explicou que graças a pandemia do coronavírus, esse primeiro de maio tornou-se especial e “único, como nenhum outro”, acrescentando que todos nós devíamos manter a esperança de “redescobrir o quanto antes um dia do trabalhador comemorativo, ainda que as vezes controverso, que constrói nossa nação”. Uma declaração condescendente clássica de um presidente que pensa que os protestos, confrontos e demandas do Dia dos Trabalhadores são simplistas e que legitima o uso da violência das forças policiais, considerando as mutilações permanecentes que a polícia comete nesses protestos como parte de uma teia de ganhos que o seu lado na guerra de classes desfruta.

No dia 2 de maio, 2020, depois de uma reunião entre todos os ministros, o governo Francês anunciou que eles querem estender o estado de emergência “sanitário” até dia 24 de Julho. Essa decisão permite que guardas de segurança e policiais a cobrarem uma multa se eles alegarem que alguém não está respeitando alguma regra sanitária durante a transição em direção ao fim do confinamento. Isso significa que nós teremos de lidar com mais ainda mais agressão policial em nossas vidas diárias.

Todos esses elementos evidenciam mais uma vez que na França, como em todos os lugares do mundo, devemos lutar contra várias pandemias virulentas de uma vez. Não só estamos travando uma batalha contra o coronavírus, mas também contra o vírus do controle e da vigilância que rapidamente se espalha nas ruas-como mostra esse vídeo. Também estamos lutando contra o vírus da xenofobia, o vírus do estado e do capitalismo.

Mais do que nunca, não devemos voltar ao normal!

Alemanha

A Alemanha vivenciou muitas faixas, ocupações simbólicas, música vinda dos bairros, e coisas do tipo. Alguns dos eventos mais interessantes aconteceram em cidades menores como Greifswald e Wuppertal.

Em Leipzig, as pessoas conquistaram duas ocupações simbólicas:

Pela manhã, houve ações descentralizadas em Berlim:

3000 people participated in the traditional radical demonstration in Berlin; basically, this meant running from one meeting point to another without anything really happening. In the end, it was almost the way Berlin May Day always is these days, but less people.

Na noite anterior, houve fogos de artifício em Walprugis e alguns pequenos confrontos em Friedrichshain:

Houve também uma tentativa real de que uma nova ocupação fosse criada em Berlim:

Em Hamburgo, ao longo do dia, muitas pessoas foram atrás de Nazistas que eventualmente não apareceram. Pela tarde, houve algumas tentativas de protestos, com poucos confrontos:

Em Dresden, anarquistas fizeram uma manifestação ilegal com 40 pessoas, sem encontrar nenhuma repressão policial até então. Fotos estão disponíveis na página Anarchist Network Dresden.

Em Greifswald, houve um protesto “permitido”, envolvendo cerca de 250 pessoas com fogos de artifício e máscaras igualmente legais. Este foi o único protesto desse tipo:

Em Wuppertal, aconteceu um protesto na noite do primeiro de maio:

Algumas manifestações espontâneas aconteceram ao longo do dia, outras incluindo fogos de artifícios, á noite. Três casas abandonadas foram invadidas; uma delas continua ocupada enquanto se escreve esse artigo.

Em Freiburg, 500 pessoas se juntaram a uma bicicletada anarquista.

Em Dortmund, pessoas ergueram faixas e fizeram ocupações simbólicas:

Em Hannover, a “Aliança por um primeiro de maio combativo” experimentou protestar através do radio, uma nova forma potente para protesto e fora de alcance. As pessoas usaram uma rádio gratuita pra veicular um programa de áudio específico, tornando-os conhecidos ao público através da rádios, nas janelas, e nas ruas.

Ao mesmo tempo, fascistas e adeptos de teorias da conspiração estavam nas ruas, causando alguns problemas. Eles espancaram a equipe de câmeras de um canal liberal mainstream de um programa de TV humorístico.

A lista está longe de estar completa, mas dá uma ideia do que aconteceu no dia de hoje.

Grécia

O que a imprensa descreveria como disciplina “militar” o Partido Grego Comunista (KKE), conhecidamente autoritário, organizou uma marcha com lugares bem delimitados para que os manifestantes pudessem ficar um longe do outro.

Por volta de 600 anarquistas se juntaram para uma marcha que envolvia em torno de 1000 pessoas de esquerda; a polícia não interferiu. Um protestos em motos convocado pelo sindicato de base contou com 200 participantes, que dirigiram por vários bairros da cidade, seguidos por um grade número de policiais. Outros protestos anarquistas menores com algumas dezenas de pessoas cada um aconteceram nos bairros de toda Atenas.

O grupo anarquista Rovikanos (“Rubicon”) também executou um ataque audacioso a um escritório corporativo.

Uma manifestação em motocicletas convocada pelo por sindicato em Atenas.

Itália

Muitas reuniões públicas aconteceram online por grupos de toda a Itália. As comemorações do dia do trabalhador aconteceram em muitas cidades de formas variadas como flash mobs, protestos, e manifestações. Muitos delas focadas em denunciar a hipocrisia do Primeiro Ministro Giuseppe Conte e a atacar a Confidustria (a federação italiana dos empregadores e a câmara nacional do comércio) por conta de todas as mortes nos locais de trabalho e infecções causadas pelo desinteresse governamental no que diz respeito às vidas e a saúde dos trabalhadores. Muitos protestos aconteceram em galpões estratégicos em Milão, Pádua, Florença, Roma, Nápoles e em outros lugares.

A maioria deles foi organizado pelo Potere AL Popolo, um partido de esquerda radical. Em Nápoles, por exemplo, houve uma ação surpresa na sede da Confindustria; os manifestantes seguravam cartazes dizendo: “Tudo vai ficar bem se defendermos os trablhadores”.

Em Gênova, o grupo Non Una Di Meno se manifestou do lado de fora da sede da regional pelo direito das mulheres, enfatizando que “A saúde é um bem comum, e não lucro!” exigimos o fim dos cortes e da privatização. O flash mob foi interrompido depois de alguns minutos por decreto.

Em Trieste, uma manifestação pacífica aconteceu às 11 da manhã. Depois de 30 minutos, a polícia se aproximou de algumas pessoas que levavam cartazes e os confrontos começaram. Os manifestantes reivindicavam seus direitos de protestar, ao mesmo tempo em que respeitavam todas as medidas de distanciamento social. Os cartazes exibiam mensagens como “Produza, consuma, morra – o verdadeiro vírus do estado” e “Nós não obedecemos, fora Convidustria”. Os manifestantes serão multados por terem se reunido e resistido à polícia.

Líbano

No Líbano, onde poderosos protestos estouraram no último Outubro, vislumbramos um futuro nebuloso. Com a economia em queda livre, o exército tomou as ruas para reprimir duramente uma nova onda de protestos, mais combativos, contra os bancos e o governo. O distanciamento social e outras medidas protetivas são impossíveis diante de soldados sem máscaras que espancavam cruelmente civis.

Nossos sentimentos àqueles que hoje lutam por sobrevivência no Líbano.

Espanha

Até o dia 26 de abril, quase 800.000 pessoas tinham sido multadas na Espanha (cerca de 2% da população) e 7.000 foram presas por quebrarem o lockdown. A multa representa um valor próximo ao da média de salários mensal dos salário.

Com todas as reuniões públicas proibidas e os policiais com poderes de prender grupos de dois ou mais adultos assim como quaisquer pessoas nas ruas com um motivo “válido”, os camaradas encontraram novos jeitos de celebrar o primeiro de maio. A CNT e coletivos de publicações anarquistas organizaram, em dezenas de cidades, falas e discursos. Em Barcelona, saquearam um supermercado, grafites apareceram de um dia para o outro em inúmeros lugares, e as organizações se intensificam continuamente pela paralisação dos aluguéis que se iniciou em primeiro de abril, com milhares de pessoas participando e dezenas de comitês de greves pipocando ao redor do país junto com centenas de redes de ajuda mútua que já existiam. A expectativa é de que a greve de aluguéis cresça esse mês.

Uma greve de fome geral também está se alastrando em algumas prisões.

Eslovênia

Na Eslovênia, o Dia dos Trabalhadores desse ano coincidiu com a quinta semana das mobilizações anarquistas e autointitularias contra as políticas repressivas governamentais sob o pretexto da luta contra o coronavírus. Depois de semanas de grandes ações usando grafites, panelaços aconteceram vindo das varandas, e de uma primeira bicicletada ocorrida há uma semana, ontem mais de 5000 pessoas foram as ruas da capital Liubliana numa segunda bicicletada, bloqueando todas as avenidas e cruzamentos do centro da cidade junto com instituições governamentais sob o tema “Um primeiro de maio de solidariedade, e não de incitação ao medo e a austeridade”. Pela segunda semana seguida, bicicletadas anti-autoritárias ocorreram também em algumas outras cidades e vilas, acompanhadas de “protestos em caiaques” em 11 rios por 160 ativistas que lutam contra a devastação do meio-ambiente na Eslovênia.

De volta para o futuro: O governo de extrema-direita e a resistência

No começo de março, quando se soube da pandemia foi na Eslovénia, o governo de extrema-direita tomou o poder. É liderado pelo mesmo primeiro ministro que foi deposto pelo levante popular de 6 meses na Eslovênia em 2012-2013.

As medidas do governo foram muito parecidas àquelas tomadas por outros países Europeus: o lockdown completo das pessoas, a completa indiferença com quem não pode bancar em estar em casa, e o reinado absoluto dos capitalistas. Enquanto as indústrias e fábricas mantiveram seus empregados trabalhando em grande parte sob medidas de prevenção insuficientes, o governo proibiu todas as reuniões públicas, incluindo protestos, e embarcou em um caminho de mudança na legislação de forma a se conceder mais poder executivo-elevando a autoridade dos militares (eles tentaram convocá-los para policiar as ruas), e aumentando o poder policial para rastrear civis via celulares, entrar em nossos apartamentos, nos vigiar de forma mais eficiente, e, ao mesmo tempo, é claro, eles se envolveram em um série de esquemas de corrupção. Enquanto isso, eles estão encabeçando uma campanha de ódio contra os imigrantes e todos que expressam alguma forma de dissidência, sejam os jornalistas independentes, delatores, ou, especialmente, manifestantes.

Para anarquistas e antiautoritários na Eslovênia, a pergunta desde o começo da pandemia é bem simples: Como nos organizaremos coletivamente em um tempo em que o isolamento total e completo é imposto pelo governo? Como criar redes de apoio mútuo e espaços seguros nas nossas comunidades e ao mesmo tempo gerar conflitos com o governo e com o capital? Como criar novas formas de nos unirmos, conflitantes, e desobedientes enquanto ao mesmo tempo nos cuidamos para nos proteger contra ambos a polícia e o vírus?

As apostas estão mais altas que nunca em termos de formas de controle que os governos tentam nos impor, a ameaçadora ascensão da extrema direita, e os desafios de encontrar novos modos de nos relacionar enquanto enfrentamos o vírus e circunstâncias adversas, observando como o neoliberalismo destruiu o sistema de saúde e a assistência de saúde simplesmente não é acessível para todos que dela precisam. Sabemos desde o início que este é o momento para uma vasta mobilização de iniciativas de todos os anarquistas e antiautoritária.

Durante as primeiras semanas, nós estávamos focados em criar situações na cidade que poderiam espalhar mensagens desobedientes e também ampliar as mobilizações. Isso incluiu gritos contra o policiamento militar nas ruas, solidariedade com os moradores de rua, contra o recebimento de aluguéis e os desejos, o autoritarismo, e coisas assim; grafites surgiram pelas paredes da cidade, não só na Liubliana, mas também em outros lugares da Eslovénia. Muitas pessoas executaram ações criativas-por exemplo, colocando 800 cruzes de fita isolante no quarteirão oposto ao parlamento mantendo o “distanciamento social” de 1,5 metros a fim de mostrar um meio seguro de protesto. Houve muitas ações individuais acontecendo em toda a cidade, incluindo carreatas em torno de prédios governamentais, colocando velas e desenhos simbólicos no chão das ruas, correndo ao redor da cidade com cartazes e pendurando faixas em janelas e varandas. A maioria das ações tornou-se “viral”. A polícia estava perdida, correndo atrás das pessoas uma por uma, escrevendo intimações, mas fracassando em impedir que mais e mais pessoas de todos os tipos participassem em oposição.

A mensagem era clara: as pessoas estão com raiva e há algo em efervescência na cidade, um espírito incontrolável de revolta.

Toda sexta feira desde 2 de abril, as pessoas tem se reunido em suas varandas, nos parques, e nos terraços dos prédios para fazerem panelaços. A cada semana, uma tópico era enfatizado – desde a dimensão de classe da mensagem #fiqueemcasa que falhou em se dirigir aos trabalhadores das fábricas ou aos desabrigados, até a mobilização global pela greve de aluguéis, em oposição a militarização da sociedade, o capitalismo, a precarização das condições de trabalho, e por aí vai. Cada vez mais, iniciativas antiautoritárias uniam-se a convocatória: de grupos anarquistas, ocupações comunitárias, coletivos de base “faça-você-mesma”, ativistas ambientais, e iniciativas feministas para grupos de organização de ajuda mútua em resposta a pandemia.

Na semana passada, os panelaços foram para as ruas sob o tema #dasvarandasparaasbikes. Uma bicicletada, “como desencadeadora de uma reação em cadeia”, método conhecido desde o início da era anti-globalização dos anos 2000, foi escolhida por permitir uma rápida movimentação pela cidade, permitindo as pessoas de bloquear grandes cruzamentos, e dispor de um certo distanciamento físico de que muitas pessoas necessitam para que se sintam parte do movimento.

A primeira reunião contando com mais de 400 pessoas foi de cara um sucesso. Depois de semanas em quarentena, o fato de sermos capazes de criar novas formas de estamos juntos foi extremamente empoderador. Através da presença física, nossos corpos em coletivo simbolizaram os conflitos com a polícia, o governo, o capital e todas as outras fontes de poder e opressão. O despreparo da polícia em lidar com os grupos de bicicletas; eles ficaram sem reação e as pessoas de todos os tipos tomaram as ruas – desde entregadores de delivery que saíram de suas vidas precarizadas do dia a dia para se juntar ao protesto, até crianças pequenas. Os gritos eram explicitamente anticapitalistas e antinacionalistas. O protesto terminou com o convite para que nos encontrássemos de novo na semana que vem. Com a passar dos dias, um grupo menor de bicicletadas menores aconteceram por todo o país, além de faixas e grafites.

O palco estava pronto para o 1º de Maio.

May Day in Ljubljana.

As mobilizações para o 1º de Maio.

Depois da construção até o simbolismo da luta do dia do trabalhador, ficou claro que o governo estava se sentindo ameaçado de novo. Ao longo da semana, presenciamos tentativas de intimidar pessoas para que elas não participassem das ações, já que o ministro de assuntos internos estava ameaçando penas de cadeia a todos que “estão colocando em risco a saúde pública” pelo ato de protestar. Ele fracassou. As pessoas apareceram em maior número que qualquer média de protestos auto-organizados que normalmente ocorrem na Eslovênia. Havia mais de 5000 ciclistas em Liubliana, 200 em Maribor, 100 em pequenos grupos em Koper e Trbolje, e algumas dezenas de pessoas reunidas na vila de Brezice. As pessoas também foram de bicicletas em Celje, Novo mesto, Nova Gorica, Slovenj Gradec, e Murska Sobota, e várias outras ações simbólicas aconteceram em pequenas vilas pelo país. Na maioria desses lugares, os anarquistas marcaram uma presença significativa com mensagens e cartazes. Em conjunto aconteciam ações sobre o meio ambiente em 11 rios, protestos contra barragens, contra as plantas do prédio da nova hidrelétrica e da destruição do meio ambiente como um todo.

Em Liubliana, nos dirigimos especialmente ao Ministro de Assuntos Internos: “Dia do trabalhador sem arames farpados, militares e cercas” para enfatizar a repressão nas fronteiras contra migrantes que atravessam pela Croatia. A mensagem que estávamos espalhando era clara: não estamos apenas lutando contra esse governo de extrema-esquerda, mas contra todos os governos, não estamos lutado para que as coisas voltem ao normal, estamos lutando contra a normalidade. Por estar ser uma mobilização anti-autoritária, todas as tentativas dos nacionalistas foram impedidas. Dada a natureza anti-nacionalista do movimento, em Liubliana, não vimos nenhum desses símbolos estatais (como bandeiras) que estamos acostumados de ver nas manifestações do dia do trabalhador no Leste Europeu.

Havia também um bloco especificamente anticapitalista na biclicletada.

Se o Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras no Leste Europeu normalmente é dia de muito enfoque pelos sindicatos burocráticos oficiais – que estão completamente desvinculados dos trabalhadores – foi engraçado constar que em meio a grandes protestos, os líderes dos sindicatos reuniram-se para ter uma conferência online com o presidente da Eslovênia. As massas auto-organizadas estavam nas ruas, enquanto os líderes de todos os tipos estavam juntos no palácio. As linhas da história estão perfeitamente desenhadas.

A repressão policial foi pesada contra grupos pequenos de manifestantes ao longo do país, mas mesmo em Koper, onde a polícia apareceu com todo seu aparato de força, eles fracassaram em controlar os manifestantes, que continuaram com o protesto pela cidade antes dos conflitos. Em Liubliana, a polícia se dispersou mais uma vez. A descentralização funcionou, assim como nas revoltas de 8 anos atrás. Quanto mais nos multiplicarmos, mais seremos invencíveis.

O sucesso das mobilizações na Eslovênia, que levaram às ruas um número muito maior de participantes que em protestos anti-autoritários de um modo geral, mostra que os principais sujeitos responsáveis pela manutenção desse sistema opressivo estão sem sentindo sem saída dadas as novas circunstâncias causadas pela pandemia. Antes dos partidos de esquerda, ONGS liberais, sociedade civil e sindicatos burocráticos conseguirem estabilizar a situação a fim de manter o status quo, anarquistas e outros anti-autoritários tem a porta aberta de oportunidades para exemplificar o que significa lutar.

Esse é o momento de sermos enfáticos em nossas ações e audaciosos em nossas idéias. Vamos pensar juntos em como criar novas formas de combate social e onde nos encontraremos em seguida.

Hoje, na Eslovênia, milhares foram as ruas depois de um chamado anarquista pelo #diadostrabalhadores pela segunda semana consecutiva de protestos contra o capitalismo e o autoritarismo disfarçados de recomendações de segurança. Isto mostra um exemplo de resistência ao mundo todo. Lute contra o vírus e contra o estado.

A cobertura da mídia tradicional dos eventos de hoje na Eslovênia estão disponíveis aqui. aqui.

Estados Unidos

Um panorama mais completo dos eventos ocorridos nos Estados Unidos está disponível aqui. Abaixo, focamos em alguns detalhes dessas ações e as reflexões que os participantes fizeram a partir delas.

Grafite em Bloomington, Indiana.

Tucson, Arizona

Uma carreata:

Flórida

Seguindo a luta prolongada dos anarquistas dentre outros abolicionistas penais, na quinta-feira o juiz distrital ordenou a agência de migração (ICE) a reduzir o número de detidos em três unidades na Florida de 1400 para 350 no período de duas semanas. Os manifestantes se reuniram em uma dessas unidades de novo no primeiro de maio para exigir a soltura de todos os detidos.

[[https://cloudfront.crimethinc.com/assets/articles/2020/05/02/19.jpg Manifestante do lado de fora de um centro de detenção do ICE no sul da Flórida no primeiro de maio. A comitiva de imprensa divulgou os seus nomes como sendo “E.Goldman, a esquerda, e Alex Berkman, a direita.”]]

Chicago, Illinois

No dia primeiro de maio, um grupo de vizinhos revoltados, abolicionistas, e outros agitadores se uniram no final de uma marcha decidiram ocupar um centro de detenção infantil que é mantida pela empresa sem fins lucrativos “Heartland Alliance” no bairro de Rogers Park. Essa prisão para crianças está atualmente passando por reformas e está temporariamente vazia. Este é o lugar onde levam as crianças dos imigrantes que tentam fugir ou se rebelam contra seus detentores em outros centros para então serem transferidos e aprisionados.

Quando a manifestação se aproximava de seu destino final, depois de passar por outro centro de detenção em atividade, fogos de artifício e fumaça preencheram o ar. As pessoas dançaram alegremente nas ruas e acenderam sinalizadores. No meio do caos, um grupo atacou o centro, ganhando acesso ao interior. Os seguranças do local, depois de arremessarem de volta duas ferramentas usadas para cortar arames, foram embora tranquilamente. As pessoas danificaram o prédio com mensagens como “Libertem todos!” e “Aqui é um prisão de crianças”. Uma pessoa chegou ao terraço e afixou uma faixa que dizia “Fechem as prisões – Abram as casas” e lançou cópias de manifesto escrito em solidariedade nas ruas que estavam embaixo. Enquanto os policiais se aproximavam, os manifestantes se ajudaram na dispersão para chegarem a algum lugar seguro.

A Heartland Alliance mascara seus sinistros programas de controle social e isolamento como altruísmo e “bom mocismo” sem fins lucrativos. Eles se vangloriam como líderes que estão no front de uma batalha nobre, e negam seu papel como um braço do complexo prisional-industrial. Essa câmara de tortura localizada no número 1627 da rua W.Morse tem sido utilizada para isolar e punir filhos de imigrantes que tentam escapar ou se rebelar contra seus detentores nos centros.

O seguinte manifesto foi jogado nas ruas ao redor, espalhados por via dos telhados do centro de detenção:

“Nós estamos ocupando este prédio em solidariedade a todas as crianças rebeldes que foram detidas aqui no passado, aquelas que ainda estão detidas em outros lugares, as pessoas encarceradas em geral, e a todos que vivenciam a violência pelas mãos do estado. A cada dia que passa da pandemia, percebemos, como alguns reconhecem há muito tempo, que o coronavírus não é a única coisa nos matando – seus efeitos são transformados em armas pelos sistemas que nos ensinaram que podíamos confiar e contar mas que estão nos machucando e nos destruindo

A Heartland Alliance — uma ONG que acoberta seu programa sinistro de controle social disfarçado de altruísmo – prende crianças imigrantes em todos os cantos da cidade, incluindo aqui na rua 1627 W.Morse. Este centro de detenção está atualmente vazio, não por que a Heartland começou a deixar que as crianças voltem para suas famílias, mas porque o contrato de barras-e-tijolos está sendo reformado e a segurança reforçada para continuar detendo e traumatizando crianças ou para transformá-la em outro tipo de facilidade carcerária para manter nossos vizinhos desabrigados ao mesmo tempo em que milhares de moradias populares permanecem vazias. Independente disso, o propósito desse prédio é o de vigiar, controlar, e criminalizar.

Existem atualmente 42 casos de coronavírus nos centros da Heartland. Mesmo depois da confirmação desses números, demonstrações de solidariedade têm denunciado o que é impossível de ser feito em celas. Por causa disso, a Heartland declarou que cantar para as crianças, exigindo sua liberdade e expressando amor, as assustas e coloca em perigo. Enquanto isso, as pessoas do lado de fora presenciaram sorrisos, acenos, gestos em forma de coração, cartazes dizendo “obrigada” e “eu te amo”. Em um protesto recente, um pedido de ajuda “SOCORRO” foi lançado em direção a multidão que se reunia abaixo; em seguida a Heartland cobriu as janelas para impedir as crianças de interagir conosco. As suas reações frustradas refletem a intensidade de nossa conexão e revela uma verdade importante: a solidariedade é poderosa e nossas ações coletivas estão começando a criar rachaduras nas paredes das prisões.

Estamos destruindo a ilusão de que o empreendimento da Heartland, de encarceramento de crianças, não é nada além de uma ocultação gradual entre os complexos sem fins lucrativos e a indústria prisional. A pandemia expôs essa relação tortuosa, e veio a tona uma avalanche de contradições. São nessas rachaduras que nós começamos a construir novos mundos. Sociedades sem encarceramento, sem dominação, nas quais não seremos dependentes de sistemas que buscam extinguir e exterminar nossa autonomia e felicidade, e que se recusa a se separar de nosso grande poder: nós mesmos.”

Grafite em Nova Orleans, Louisiana. A mensagem está um pouco simplificada demais, mas é indiscutível que as desigualdades criadas pelo capitalismo são responsáveis por uma grande parte do perigo que o vírus nos impõe..

Minnesota

Manifetações de caravanas autônomas pelo centro de Minneapolis visitaram jovens presos antes de chegarem ao Whole Food, Caribou Coffe e Trade Joe’s – onde trabalhadores estão se organizando para se protegerem melhor enquanto são forçados a trabalhar durante a pandemia do #COVID19. #MayDay2020

St. Louis, Missouri

A prefeitura de St. Louis pretende despejar um acampamento de desabrigados no centro da cidade que passou a existir desde a explosão da pandemia, dando a entender que os moradores de rua não podem simplesmente “se abrigar em um lugar”. O diretor de operações do governo municipal Todd Waelterman afirmou que ele mesmo poderia se livrar do acampamento com um trator. Na sexta, um morador do acampamento tirou a máscara, expondo o diretor a uma pequena parte dos riscos que ele impõe constantemente aos outros sem qualquer consideração.

Enxergamos essa atitude como corajosa, e um ato louvável. Se fosse impossível para oficiais privilegiados como Waerlerman de se protegerem de eventuais problemas de saúde que eles incessantemente impõe aos pobres e indefesos, eles mudariam suas políticas rapidinho.

Portland, Oregon

“Protejam umas às outras” e “Não ao Capitalismo”.

Austin, Texas

Em Austin, uma carreata com 30 automóveis fechou a principal avenida que circula a cidade por mais de uma hora. A polícia imediatamente agiu, prendendo mais de dez participantes, além de rebocar e confiscar os carro.

Richmond, Virginia

Uma carreata:

Uma carreata em Richmond toma o estacionamento do Whole Foods em solidariedade ao #wholefoodsstrike depois de se manifestarem durante 4 semanas seguidas pelos encarcerados. Caravana da #RenTStrike2020 acontecendo agora!

Olympia, Washington

Em Olímpia, uma barulhenta caravana de pessoas em greve de aluguéis, e anarquistas desfilaram pelo centro com carros decorados. Os ciclistas foram ágeis e seguraram os cruzamentos direcionando o tráfego, mantendo assim a manifestação junta. Dois diretores de imobiliárias experimentaram um pouco do poder dos moradores quando foram fazer uma visita e encontraram cartazes e flyers declarando a greve de aluguéis. Os diretos das imobiliárias de cada lugar vieram tentaram discutir, apenas para serem levados para fora por um buzinaço de dezenas de carros. Esperamos que eles saibam que esta é só uma prova do que vai acontecer a ele caso eles tentem despejar qualquer pessoa durante ou depois dessa pandemia.

Depois de uma marcha radiante e caótica, nos juntamos a uma caravana em solidariedade com as pessoas sem passaporte e trabalhadores migrantes que vieram dirigindo de Seatlle até a capital. Um pequenino grupo de reacionários cultuadores da morte se aglomerou com suas bandeiras MAGA e cartazes conspiracionistas da Q-Anon, mas eles estavam em número defasado e foram ridicularizados pelos muitos carros e camaradas.

Depois da caravana, os organizadores realizaram uma cerimônia de trabalhadores rurais migrantes em outro lugar, com direito um caixão coberto de velas em homenagem às vidas daqueles que foram sacrificados no altar da economia.

Reflexões Táctical

Carreatas são uma tática nova, por mais estranho que seja; ao redor do país, todos estão aprendendo como fazê-las no processo. A escolta de ciclistas e sinalizadores do trânsito (como bandeiras) foram essenciais para manter uma formação próxima pelas pequenas ruas da cidade nas rotatórias e nos semáforos. Depois de ter começado timidamente, percebemos que com os ciclistas segurando o tráfego, podíamos estar juntos em fila e passar os sinais. Muitas das lições táticas de marchar na rua juntos, nós transpomos para o reino das carreatas facilmente. A comunicação, contudo, provou-se mais difícil; um transmissor de ondas de baixa potência em FM, ou estação de rádio via internet, poderia ajudar a todos a estarem sintonizados no mesmo canal, e também a receber recados e coordenadas ao longo do caminho. A polícia estava de mãos atadas e pareceu em desvantagem por não saber lidar com um tanto de carros de uma vez.

Quando chegamos à capital, a dinâmica mudou drasticamente. Carreatas de extrema-direita também estavam desfilando; frequentemente ficamos presos no sinal lado a lado com um bando de cultuadores do Trump, trocando ofensas. Depois de encontrar os mesmos reacionários nas ruas por anos a fio, foi muito mais desorientados estarmos veículos “juntos”, parcialmente protegidos uns dos outros, mas também em potencial risco. A confusão – e a inabilidade de esboçar linhas espaciais entre as partes – tornou o policiamento praticamente inexistente, como também reduziu a maior parte dos conflitos a trocas individuais, e não um bloco que chega quando marchamos juntos em grupo. Não é difícil de prever um futuro no qual as carreatas com posições distintas se tornem cada vez mais antagônicas, mas é fácil imaginar que nada de bom irá emergir de tais conflitos.

"”Se o que você quer é emprego para todas, você ainda é inimigo e ainda não pensou claramente no que isso significa.” — Diane di Prima

Enquanto essa caravana foi mais de uma exibição de poder e unidade, e menos uma crítica das condições material do mundo, as possibilidades estratégicas das carreatas são inúmeras. Uma carreata de 30 carros poderia facilmente fechar uma rodovia interestadual, bloquear galpões de “empresas que lucram com o coronavírus”, protestar nas portas dos locais de trabalho, dentre outros.

Há uma estranha inversão em jogo com essa tática. Enquanto usar uma máscara é finalmente aceitável socialmente no dia a dia, tornando o anonimato mais fácil, vemos limitados a usar carros em manifestações mostrando placas. Parece um troca justa no momento – é melhor se arriscar e construir uma oposição, do que ceder toda oposição totalmente aos negadores do vírus que não veem a hora de voltar a trabalhar. Mas existe ainda a dúvida em como preservar a anonimidade na era em que carreatas parecem ser a tática mais segura e mais efetiva.


Fique em casa – e veja o totalitarismo ser consolidado para sempre. Mas também não ajude o coronavírus a se alastrar. Um desafio permeado de imperativos, mas que devemos enfrentar nesse momento.